
Comecei a montar aos 3 anos, quando ganhei a Tordilhinha do meu avô, uma petiça (égua baixa) tordilha (branca com pequenas pintas pretas). Durante os 3 meses de férias escolares ao ano, abandonava Porto Alegre para ajudar no trabalho com o gado e ovelhas na fazenda.
Lá pelos 10 anos já era um peão com relativa experiência, salvo trabalhos que exigiam a força de um adulto, como laçar uma rês, eu não me apertava na lida.
Então tive minha segunda égua, Andorinha, filha da Tordilhinha. Alta, esguia, meio sangue inglês, zaina (preta) com uma estrela branca na testa. Era um animal para cavaleiros experientes. Ligeira, quase nervosa, de reações rápidas, aquele tipo de animal que exige antecipação e atenção.
Certa vez quando repontávamos o gado, um terneiro desgarrou enquanto eu conversava desatento com o Paulo. A Andorinha atendeu ao trabalho sozinha, enquanto eu praticamente pendurado ao estribo, lutava para não ser derrubado. Só voltei a ser cavaleiro quando o terneiro já era reconduzido à tropa.
Mesmo sendo a filha um animal que admirasse tanto, não abandonei a mãe. Mesmo velhinha continuei encilhando a Tordilhinha, quando o trabalho era leve, pouco demorado e a temperatura amena, lá íamos nós felizes camperear. Montava com certa reverência e cuidado naquela senhora que me ensinou a ser cavaleiro.
Aos 17 virei pai e marido, rédeas, arreios e laços viraram fraldas, chupetas e mamadeiras. A fazenda ficou tão longe quanto minha infância. Depois meu avô faleceu, minha avó foi morar na cidade. Nunca mais vi minhas éguas e nunca mais as montei. Não sei o fim de minhas amigas.
Este final de semana, depois de mais de duas décadas, tornei a montar. Meu corpo lembrou-se rápido dos fundamentos, ainda que o animal tenha acusado os meus agora 90Kg. Os sentidos tomaram um banho de nostalgia. Mas, a memória mais viva foi a do carinho, respeito e gratidão com estes seres que me carregaram a infância.