Uma das coisas mais frustrantes para um fotógrafo é deixar de fazer uma foto que ele julga importante. Não é o caso de você se deparar com uma grande cena e não ter disponível o equipamento. Isso acontece seguidamente e a gente se acostuma com essas perdas inevitáveis. O problema é quando a cena se apresenta o equipamento está disponível, você visualiza a foto e como quer fazê-la e não pode fazer a foto. Aí fica uma coisa entalada na garganta.
Isso aconteceu na minha recente viagem a Porto Alegre. Aproveitando a tarde livre saímos para fotografar o Hotel Majestic, tarde que também acabou rendendo o ensaio na Catedral. Pegamos um taxi no hotel e descemos no Mercado Público, centrão de Porto Alegre. Local perigoso para se ostentar qualquer objeto de valor, com uma freqüência similar as imediações da Praça da Sé em São Paulo. Equipamento em uma mochila comum, sem nada que denunciasse o conteúdo.
Passamos pela praça abarrotada de pessoas nos fundos do Mercado, caminhando em direção à Rua da Praia. Quando nos deparamos com uma pessoa deitada no chão no meio da multidão. Andei observando a cena, até chegar ao ponto que julguei seria o ideal para fazer a foto. Parei.
Ainda não tenho a habilidade necessária para fotografar mazelas humanas, sem correr o risco de parecer mais um dos tantos exploradores da miséria. Portanto, fotografar mendigos e crianças sujas pedindo em sinais, ainda não são assuntos das minhas fotos. Mas, ali a situação era diferente.
A pessoa, pelo ângulo que escolhi, não passava a informação de ser um mendigo. A cena era forte e brutal: primeiro pela posição da pessoa jogada ao chão, de uma forma em que não era possível determinar se estava viva ou morta sem examiná-la; segundo pela indiferença dos passantes que quase pisavam em seu corpo.
Pensei a foto. Tinha que realçar a pessoa deitada, a tomada deveria ser baixa valorizando os pés que pendiam para fora da calçada e escondendo a cabeça. As pessoas, que passavam indiferentes a cena, deveriam ser parcialmente apagadas, ficando apenas como borrões. Como a deformidade que a vida social gera. Para isso, precisaria ajoelhar-me, fechar o diafragma ao máximo para poder escolher uma velocidade baixa que mantivesse apenas o que estava imóvel nítido. Com uma velocidade tão baixa fica difícil não tremer. Já fiz fotos com velocidades bem baixas com a máquina na mão, mas quase sempre apoiado em algo ou encostado em uma parede. Ali seria muito arriscado confiar na firmeza da mão, o certo era puxar também o tripé da mochila.
Tudo pronto. A cena. A mensagem. A forma de fazer a captura. O equipamento necessário e disponível. E então olho ao redor... Nenhum policial a vista. Dezenas de pessoas encostadas na esquina e nas portas de um boteco de quinta me olhando, provavelmente tentando adivinhar o motivo de nós estarmos parados ali no meio da multidão. Olho novamente, procurando um único policial com quem pudesse conversar e pedir que apenas ficasse parado ao meu lado por 2 minutos. Nada...
Uma grande foto pode valer bem mais de dezenas de grandes máquinas, mas a minha segurança e a de quem amo, não tem preço. Olho desolado para a foto que decidi não fazer. Um mendigo chega e senta ao lado da pessoa deitada e destrói a cena. Vou embora...