Uma das primeiras perguntas feitas a aprendizes é: o que você quer da sua fotografia? Até então eu não tinha essa resposta e me dedicava exclusivamente a aprender e dominar as técnicas fotográficas. E então hoje, limpando o computador, algo fundamental se revelou.
A etimologia da palavra foto-grafia é escrever com luz. A tradução que entendo mais correta seria expressar-se com imagens, pois no dizer dos mestres a fotografia é um meio de comunicação. O primeiro desafio do aprendizado é o técnico, saber como fazer o que se quer, se é possível e que tipo de efeito técnico se quer para uma imagem. Não tenho a pretensão para dominar todas as técnicas, mas com os conhecimentos que já tenho, sou capaz de entender a técnica usada em praticamente qualquer captura de imagem. Falo da captura da imagem, porque escolhi relegar ao segundo estágio do meu aprendizado a manipulação digital das imagens. Quero primeiro aprender a capturar imagens para depois editá-las.
Percebi na viagem à Posadas, descrita aí abaixo que já sou capaz de “criar” a fotografia na minha cabeça antes de fazê-la. Esse processo é fácil de perceber nas duas fotos da casa com árvores na calçada que postei abaixo, a foto que imaginei era uma imagem com fortes contrastes entre a sombra das árvores e as manchas de luz solar que as atravessavam e eram projetadas no chão e na fachada. Na primeira foto que fiz para registrar a dona da casa limpando a porta, o objetivo é apenas o registro de um ato que no momento foi inusitado, a senhora limpando a porta. Mas quando ela sai, eu “afinei” meu instrumento e concretizei minha proposição inicial. As duas fotos foram feitas exatamente no mesmo local, o mesmo ângulo, mesma luz e apenas minutos de diferença. Porém, é muito fácil perceber que são completamente diferentes.
Mas, criar uma imagem e seus efeitos a partir do que se vê e dominar o equipamento para fazê-lo, é apenas o primeiro passo do processo. Dominar a técnica não faz o artista. A obra nasce do que se quer dizer com ela. E aí vem a pergunta: o que você quer da sua fotografia?
E então vem o meu insite. Que escrita (grafia) me dá prazer? Como eu escrevo? Sem dúvida meu ideal é o texto criativo, simples, objetivo, com idéias fortes, agressivas e preferencialmente polêmicas. Se der para juntar isso tudo com beleza, melhor ainda, mas ela não é objetivo, apenas uma conseqüência bem-vinda. Pronto! Encontrei na forma que escrevo com letras a forma que quero escrever com imagens.
Recentemente fiquei muito envaidecido com um convite. Participo de um grande fórum sobre fotografia e fui convidado por um pequeno grupo que integra este espaço a fazer parte de um grupo exclusivo de estudos fotográficos. É uma turma pequena, de no máximo vinte fotógrafos, que se reúnem virtualmente para estudar fotografia. Formado por pessoas muito experientes, algumas com mais de 40 anos de prática profissional e amadora. Ser convidado, com meus minguados 6 meses de estudo à integrar um grupo com esse nível deixou-me muito feliz. Mas, não estou citando isso (apenas) por vaidade, mas para dizer que o tema proposto este mês para estudo nesse grupo, também fez parte dessa descoberta fundamental.
O tema proposto é: cotidiano.
Abaixo minha fotografia e sua justificativa.
"Fiquei impressionado com o nível da discussão neste tópico. Comecei a lê-lo ontem à noite e não dormi enquanto não encontrei uma idéia que viesse ao encontro, não só do tema, mas às brilhantes orientações do coordenador. Assim procurei algo que fosse o mais comezinho e íntimo possível ao cotidiano do maior número de pessoas, do tirador de leite ao executivo do escritório, do morador da megalópole ao agricultor no campo. Pensei também na questão da campanha publicitária, lembrei das famosas fotos de Oliviero Toscani e tentei imaginar uma imagem que seria digna do tema cotidiano em um daqueles outdoors da Benetton. Fiquei com muito medo de publicar a foto, porque caminhei numa tênue linha entre a subversão e o mau-gosto. Queria ao mesmo tempo mostrar uma cena prosaica que nos é absurdamente comum (desde que tiramos as fraldas) e ao mesmo tempo algo envolvido em certo tabu, que fazemos escondidos. Há uma cena de um filme famoso que não lembro o nome agora, onde os convidados de uma festa estão todos sentados em vasos sanitários na sala, e esporadicamente um se levanta e vai ao sanitário, tranca-se e come. Esse também é o tipo de questionamento que procurei.
Não há nenhuma preocupação com o aspecto técnico, pois como minhas duas mãos fazem parte da cena, a máquina está no automático e depois de acionar o timer posicionei as mãos e fiz o enquadramento pelo LCD com a máquina pendurada na boca pela alça."

