20 Maio 2008

A história de uma foto

Resolvi descrever o processo de “construção” de uma foto. Quando eu não entendia nada de fotografia, eu tinha a impressão que uma boa foto era quase um golpe de sorte. Que ela dependia no máximo do olhar do fotógrafo e da precisão no momento do click.
Nesse exemplo descrevo o método desenvolvido pelo Bresson, chamado de “O Instante Decisivo”. É um exemplo que não deu certo, mas de qualquer forma acho interessante:
Neste domingo parou um Opalão lindo em frente à casa de um vizinho. Adoro carros antigos e me chamou a atenção seu estado impecável. Como estava com a máquina na mão resolvi fotografá-lo.
Antigamente eu teria ido lá escolhido um ângulo qualquer em que o carro ficasse legal e apertado o botão. Mas, agora não me basta mais o assunto, eu tenho que “encaixá-lo” no retângulo fotográfico.
De cara corri para tentar casar a diagonal do retângulo com o quadrado interno, mas era impossível, pois como a rua é inclinada em direção ao meio-fio (guia) o carro ficava em uma posição desagradavelmente inclinada. Então fechei o enquadramento no carro, para esconder a imperfeição do inicio da diagonal no vértice inferior direito, e aí a linha do teto do carro não ficou no terço superior da foto (onde eu a queria para formar o quadrado interno inferior). Mas, preferi privilegiar a ilusão da diagonal perfeita. O furgão branco no vértice superior, que não gostei, não tinha como mudar já que estava estacionado. Mas, ainda faltava algo que deixava o quadro vazio, sem atrativos.
Então fiquei parado esperando que algo acontecesse no mundo para completar (equilibrar) minha foto. Acho que fiquei mais de 5 minutos, com o olho no visor esperando. Além de alguns carros que buzinaram, o cara da bicicleta reclamou ao passar, da minha localização quase no meio de rua.
Quando o cidadão ao fundo começou a atravessar a rua, eu vi que era o que eu estava esperando. Queria fazer o click com ele e o ciclista alinhados paralelamente à diagonal. Mas, ai apareceu o carro branco ao fundo e na ânsia de esperar ele sair do quadro perdi o momento da colocação do pedestre na foto, que seria dois passos antes.
Mas, o que quero demonstrar com toda essa explicação, é o processo de composição. Em alguns meses de estudo passei de um cara que procurava apenas por algo interessante para clicar, para um maluco que fica parado no meio da rua, com um quadro composto nos mínimos detalhes, esperando pelo “meu instante decisivo” (que nessa perdi), só para fazer a foto de um carro.
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