30 Novembro 2007

Quilometragem

Esse final de ano tem sido especialmente corrido. Voltamos à estrada. Nos próximos 3 dias colocaremos mais 1.600Km no hodômetro, e nas próximas semanas, mais estrada.
Acho que preciso de um carro novo.

29 Novembro 2007

Aproximação para pouso

O maior barato dessa seqüência é que foi tão rápida que só vi exatamente o que tinha fotografado quando baixei as fotos.






28 Novembro 2007

Primos

Mac e Andresa em cena de carinho explícito.

26 Novembro 2007

Linda

Não resisti. E lá estava eu no meio do pátio, sentando atrás do tripé à 01:30.

23 Novembro 2007

Maurice Béjart

Do filme Retratos da Vida, confesso que não lembro nada além do Mikhail Baryshnikov sobre aquele círculo dançando o Bolero de Ravel.
Simplesmente maravilhoso e inesquecível!

22 Novembro 2007

Anomia

Palavra de origem grega que significa a inexistência de lei ou a ausência de normas de conduta. Normalmente associada à desorganização e, portanto, temida pela sociedade. Era no direito romano um dos motivos para o non liquet, quando um juiz negava-se a julgar uma ação por não clareza ou ausência de norma. O non liquet restou vedado no direito moderno, sendo o magistrado obrigado a julgar qualquer ação que lhe seja apresentada.
A antiga lição de direito me veio durante a viagem que fiz ontem. Rodei 600Km pelo interior no estado, para fazer uma audiência na terra do Quintana (Alegrete), por estradas em boas condições e vazias, fui e voltei infringindo a lei. Em nenhum momento por mais de 10 minutos mantive a velocidade legal de 80Km/h.
Não, eu não sou nenhum louco que anda correndo, nem colocando minha vida e as dos outros em risco. Em nenhum momento passei dos 110Km/h e fiz uma viagem bastante tranqüila e agradável.
Lembro de quando reduziram o limite de 100 para 80. Meu pai tinha um Galaxie 500 que pesava quase 2 toneladas e sequer tinha freios a disco. Este é apenas um exemplo de lei burra e anacrônica. Mas, a gente se sente perdido se não normatizar. Como será que um juiz alemão pode determinar o culpado por um acidente numa estrada sem limite de velocidade, sem uma lei que diga quem estava em excesso de velocidade? Será que não seria usando o bom senso?
O excesso de normatização é prova da ignorância de uma sociedade. É como se o cidadão fosse incapaz de distinguir as mais básicas noções de certo ou errado. E o próprio Direito reforça essa idéia ridícula, ao pregar na Constituição o princípio da legalidade, aquele que diz: “ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Em outras palavras: “se não estiver escrito numa lei que algo é errado, pode fazer a merda que quiser que está tudo bem.”
Desta forma o Estado retira do cidadão a idéia de certo e errado e a substitui pela noção invariavelmente errada da maioria. Porque errada? Simples! Porque toda a regra tem sua exceção e o que se aplica a todos não necessariamente se aplica a mim.
Ah! Mas, e o princípio da igualdade da Constituição? Aquela besteira que começa assim: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza...” Iguais? A mesma lei para todos? Você deve estar brincando se acredita nisso né? A própria Lei é a primeira em separar as pessoas e aplicar normas distintas a elas, de acordo com suas diferenças. Só para exemplificar sobre direitos específicos dos gêneros: homens podem determinadas coisas e devem outras, mulheres coisas distintas, gays não podem quase nada, e quem não é completamente homem ou mulher ou é as duas coisas nem existe para o direito.
Quem tinha uma visão clara sobre a “noção de igualdade” do Direito era o reacionário Rui Barbosa, que disse em Oração aos Moços: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam”.
Por isso eu sonho. Não, sonho é factível. Na verdade eu tenho a utopia de que um dia vivamos em quase total anomia. Quando um juiz terá apenas que usar o bom senso para resolver quase todas as ações. O cidadão voltará a ser o senhor do certo e do errado. E a constituição terá um único artigo:
- É dever do Estado e da Sociedade resguardar a dignidade e promover, sempre que possível e de acordo com o bom senso, a felicidade dos seres vivos.

20 Novembro 2007

Procurando a luz

Enquanto luto para encontrar a luz no studio, minhas modelos divertem-se.

16 Novembro 2007

Nestor

Duas da manhã. O miado do “nêgo” era diferente na sala. Encontrei meu companheiro já cego, procurando minha voz no ar. Chamei a Mônica, examinamos e não demorou muito a concluirmos: envenenamento.
Ainda tentamos o antitóxico que a veterinária receitou para o Mac quando ele andava mordendo sapos. Infelizmente, sem efeito.
Nosso amigo foi fora de hora, era muito jovem. Acompanhamos sua agonia por duas horas. Creio que lhe demos a morte que todos merecem, cercado de carinho e amor, nosso dono se foi.
O enterramos agora pela manhã.
Ah...Como dói perder um amigo tão...
...


















































Studio

Aproveitei que o jipe tira férias prolongadas na oficina para improvisar um studio de foto na garagem. A palavra é realmente improvisar, porque mesmo que eu quisesse comprar equipamentos, não encontraria nada por aqui. Procurei entre os restos mortais do meu último bar, holofotes, fios, reatores e encontrei até uma luz negra.
Projetei dois suportes para montar os holofotes e me toquei para uma tornearia, voltei com uma pilha de tubos de alumínio e improvisei os refletores. Tudo bem rústico, mas consegui uma luz legal e ainda com a possibilidade de utilizar vários tipos de lâmpadas.
Está quase pronto e até que está ficando bem bacana. Em alguns dias já devo ter alguma coisa para mostrar de minhas experiências em ambiente controlado.

14 Novembro 2007

Fotografia

Este é um ótimo Fórum para quem quer saber um pouco mais sobre fotografia:

DigiForum

10 Novembro 2007

Cozinheiros Terroristas

- Mas, o que é isso???
A cara da moça do raio x era mais constrangedora que a pergunta, e era minha mochila preta que estava lá dentro.
É segunda feira, 6 horas da manhã. Lá em São Paulo, Congonhas e Cumbica estão fechados por causa do tempo. Todos os vôos do Santos Dumont estão sendo transferidos para o Galeão. Filas imensas desde as 4 horas.
Eu não digo Aeroporto Internacional Tom Jobim de jeito nenhum, primeiro que o nome é “quase brega”, depois que tenho pena do Tom. Ser nome de aeroporto é uma coisa meio gay, “pousei no Tom Jobim”, “embarquei no Tom”, “o Tom está aberto”, coitado do Tom.
A moça perguntou tão alto e arregalou tanto os olhos para a tela do aparelho, que as centenas de pessoas na fila de espera ficaram atentas aos possíveis terroristas.
Respondi baixinho: é uma panela de barro.
Quase rasguei a mochila para colocar aquele trambolho que compramos num posto de beira de estrada em Iconha, sul do Espírito Santo.
A moça pede: o senhor pode abrir a mochila?
-Claro.
Enquanto me esforço para abrir, lembro-me da panela maior, que vinha depois pela mesma esteira, era tão grande que a Mônica tinha feito toda a viagem até o Rio com ela no colo. O coitado do moço do boteco tinha se esmerado para embalar aquilo, estava numa caixa de papelão amarrado com duzentas voltas de barbante, e dentro tinha jornal que dava para forrar toda a área de embarque do Tom (desculpa Tom, não resisti à sacanagem).
Final de viagem. Cai saquinho com meia suja, tênis, sapato social, parece que tudo vai sair antes da panela lá de dentro. Finalmente, pego o artefato bélico e entrego para o moço, que a essas alturas já está fazendo a segurança das moças da máquina. Ele olha desconfiado, vira, faz cara de que tipo de idiota anda por aí com um bagulho tão pesado dentro de uma mochila, mostra para a moça, se olham e me devolvem a panela. Nem ouso olhar para a fila.
Lá vem a caixa. Aquilo sim parecia uma bomba caseira. Gelei. Era tão ridículo que parecia cena de “O Sistema”. Podia até sugerir para a Fernanda Yung: casal de cozinheiros terroristas é detido no Rio tentando embarcar com duas panelas de barro, de acordo com informações de funcionários, os dois pretendiam tomar o avião ameaçando a tripulação com as panelas, e um dos terroristas que é piloto amador jogaria a aeronave sobre o Mercado Público de São Paulo, em protesto pelo aumento do sanduíche de mortadela.
Claro que a caixa para no meio da máquina. A moça e o seu assessor nos olham em conjunto. Baixamos a cabeça e ela pergunta: Panela de barro?
- Sim.
Sai tão baixinho que tenho certeza, eles leram nossos lábios.
Ela nem olha direito para o resto das coisas e nos manda embora. Agora já sei que quando tiver que entrar com algo proibido em um vôo é só colocar duas panelas capixabas na frente.
Depois disso, o olhar espantado do comandante e o seu cochicho no ouvido da comissária, quando passamos carregando nossa bomba para dentro do A-320, foi fichinha.
Essa vida de cozinheiro terrorista é fogo, mas tem suas moquecas de recompensa.

08 Novembro 2007

Alvo de Elite

Final de tarde e lá estou eu de tocaia. A luz já é fraca, mas é o horário que minha presa se torna mais regular. Ele só tem algumas gramas, mas é um adversário de peso para um aprendiz.
Estou a pelo menos uns 30 minutos esperando. Na primeira tentativa, em minha santa ingenuidade, acho que serei capaz de ligar a máquina a tempo, mas quando o visor acende só vejo flores. Com a máquina ligada, na segunda aparição de meu efêmero modelo, tento ajustar o zoom e antes de colocar o dedo no disparador só me resta um risco cintilante no visor. Agora estou o próprio predador, arma engatilhada, inclinado para frente, coração acelerado e utilizando uma técnica que aprendi com caçadas, fazer a mira com os dois olhos abertos, um no visor o outro buscando qualquer risco no ar com a visão periférica. E lá vem ele, o olho que está livre localiza a aproximação, viro a máquina e me concentro no olho do visor. Não consigo fazer o foco, ele se move, torno a enquadrar e finalmente a primeira rajada. A velocidade de fotos seqüenciais da minha máquina não é grande coisa, 4/seg ou 7/seg dependendo da qualidade, mas foi o suficiente para umas 20 fotos nos poucos segundos, generosamente cedidos pelo meu nervoso alvo.
Nossa diferença de velocidade, praticamente coloca-nos em realidades diferentes, às vezes ele desaparece do meu mundo e se materializa em frente à outra flor, tenho curiosidade de me ver em slow motion pelo ponto de vista dele. De qualquer forma ele até foi bem condescendente com a minha velocidade paquidérmica.
Depois de baixar as fotos, verifiquei que com essa luz não vai dar. Modo manual numa situação dessas é coisa que eu nem sonho, por enquanto, enquadrar e fazer o foco já é uma áfrica, a máquina só chegará à velocidade que preciso num sol de meio dia.
Moral da história: eu e meu amigo verde cintilante temos outro encontro pela frente, e estarei com protetor solar dessa vez.

07 Novembro 2007

Jabor

No livro "Amor é prosa sexo é poesia" do Jabor, há um texto que volta e meia releio e sempre me emociona...


Meu avô foi um belo retrato do malandro carioca

ESTE TEXTO É sobre ninguém. Meu avô não foi ninguém. No entanto, que grande homem ele foi para mim. Meu pai era severo e triste, mal o via, chegava de aviões de guerra e nem me olhava. Meu avô, não. Me pegava pela mão e me levava para o Jockey, para ver os cavalinhos. Foi uma figura masculina carinhosa em minha vida. Se não fosse ele, talvez eu estivesse hoje cantando boleros no Crazy Love, com o codinome Neide Suely.
Meu avô, Arnaldo Hess, foi um belo retrato do Brasil dos anos 40/50. Era um malandro carioca – em volta dele, gravitavam o botequim, a gravata com alfinete de pérola, o sapato bicolor, o cabelo com Gumex, o chapéu-palheta, o relógio de corrente, seu Patek Phillipe tão invejado, em volta dele ressoava a língua carioca mais pura e linda, com velhas gírias (“Essa matula do Flamengo é turuna!” ). Meu avô era orgulhoso de viver nesta cidade baldia e amada, o Rio que soava nos discos de 78 rpm, nas ondas do rádio, o Rio precário e poético, dos esfomeados malandros da Lapa, das mulheres sem malho e de seus sofrimentos românticos, entre varizes e celulite. Antes de morrer, ele me olhou, já meio lelé, e disse a frase mais linda: “É chato morrer, seu Arnaldinho, porque eu nunca mais vou à Avenida Rio Branco”. Ali, onde ele me levava para tomar refresco na Casa Simpatia, era o centro de seu mundo. Os políticos canalhas populistas que estão hoje aí que querem a volta do passado apenas pelo lado “sujo” do atraso. Mas havia também uma poética do atraso – na Lapa, no Mangue, havia um Rio que, com poucas migalhas, fabricava uma urbanidade pobre, bela e democrática.
Ele também me dava aulas de sexo. Contou-me uma vez que a melhor mulher que ele teve na vida tinha sido um “joão”. Que era “joão”? Esse termo, ainda escravista, designava as pretinhas tão pretinhas que tinham o pixaim da cabeça ralo, quase carecas. Eram as “joão”. Pois ele me disse: “Foi no terreno baldio, ali na General Belfort...foi o melhor nick fostene que eu tive...” (Inventara esse nome de falso inglês de cinema americano para designar a cópula, sendo a palavra acompanhada pelo gesto vaivém de bomba de “Flit”: Nick Fostene...). Contava isso a um menino de dez anos, a quem ele dava cigarros e ensinava (a mim e ao Cláudio Acylino, meu primo) a pegar bonde no estribo, andando. Me apresentou sua amante, uma mulher ruiva chamada Celeste, que me beijava trêmula e carente como uma avó postiça e que, sendo de “boa família” (ele me falava disso com uma ponta de orgulho), “nunca se metera em sua vida familiar oficial”. Isso ele dizia com os olhos machistas molhados de gratidão. Ou seja, ele me ensinava tudo errado e isso me salvou.
Quase analfabeto, vivera grudado com a turma dos intelectuais da Colombo, babando com os trocadilhos de Emilio de Menezes, Olavo Bilac, Agripino Grieco, anos 20, o que lhe deu um fascinado amor às letras que não lia, mas que o fez trazer-me sempre um livro novo, da Rio Branco, junto com a goiabada cascão e o catupiry.
Uma vez, já mais tarde, eu namorava uma moça lindíssima e virgem (claro), mas burrinha. Reclamei com ele. Resposta: “Ah, é burrinha? Você quer inteligência? Então vai namorar Santiago Dantas!” Quando fomos aos sinistros rendez-vous, de onde nos floresceram as primeiras gonorréias, nossos pais severos bronquearam: “Vocês são uns porcos!” Já nosso vovô riu, sacaneando: “Poxa...boas mulheres, hein...?”
Vovô nos ensinava a conversar com as pessoas, olho no olho. Na minha família de classe média, celebravam-se as meias-palavras, o fingimento de uma elegância falsa, de uma finesse irreal. Só meu avô falava com os vagabundos da rua, com os botequineiros, com os mata-mosquitos. Enquanto minha família toda votava histericamente na UDN, em pleno delírio golpista, meu avô pegou o chapéu, e foi votar. Eu fui atrás dele...”Votar em quem?” “No Getúlio seu Aranaldinho...ele gosta do povo e eu sou do povo.” “E eu sou ´povo´ também, vovô?”, perguntei. Ele riu: “Você não, você tem velocípede...”
Ele me levava ao Maracanã, ele me levava em seu ombro para ver a estrela de néon da cervejaria Black Princess (até hoje me brilha esta supernova na alma), ele, uma vez, deixou-me ver um morto na calçada, navalhado no peito (“Parecia a fita do Vasco da Gama”, ele disse) – não me escondeu a tragédia. Me ensinou tudo errado e me salvou.
Meu avô adorava a vida e usava sempre o adjetivo “esplêndido”, tão lindo e estrelado. A laranja chupada na feira estava “esplêndida”, a jabuticaba, a manga-carlotinha, tudo era “esplêndido”, para ele, pobrezinho, que nunca viu nada; sua única viagem foi de trem a Curitiba, de onde trouxe mudas de pinheiro. “Esplêndidas...”
No fim da vida, já gagá, eu o levava para o Jockey para ele conversar com o Ernani de Freitas, o amigo tratador de cavalos, que lhe dava um carinho condescendente com sua gagazice, falando de cavalos que já haviam morrido. “Hoje corre a Tiroleza ou a Garboza?”, perguntava. “A Tiroleza está machucada, Arnaldo...”
Velho gagá, deu para dizer coisas profundíssimas. Uma vez, já nos anos 70, celebrei para ele as maravilhas lisérgicas do LSD que eu tomara. Ele me ouviu falar em “delírio de cores”, “lucy in the skies” e comentou. “Cuidado, Arnaldinho, pois nada é só bom...” Outra vez, vendo passar um super-ripongão sujo, “bicho-grilo brabo”, comentou: “Olha lá. Um sujeito fingindo de mendigo para esconder o que realmente é...!”
Há dois anos, na exumação de um parente, o coveiro colocou várias caixas de ossos em cima do túmulo. Numa delas estava escrito a giz: “Arnaldo Hess”. Não resisti e levantei de leve a tampa de zinco. Estava, lá os ossos de vovô. Vi um fêmur, tíbias, que eu toquei com a mão. Vocês não imaginam a infinita alegria de, por segundos encostar no meu avô querido. Eu estava com ele de novo em 1952, sob o céu azul do Rio.
Meu avô não era ninguém. Mas nunca houve ninguém como ele.

05 Novembro 2007


03 Novembro 2007

A borboleta

Aproveitando a luz do sábado ensolarado para uns exercícios.

Distância Focal - 55.2mm, Exposição - 1/640, Diafragma - f4.0, ISO - 50



Distância Focal - 19.4mm

Exposição - 1/500

Diafragma - f4.6

ISO - 50







Distância Focal - 22.1mm

Exposição - 1/640

Diafragma - f4.0

ISO - 50

Ditados Élficos

Cada sentença uma cabeça.

02 Novembro 2007

Leonel

O Leonel foi uma figura essencial na minha vida. Era um garoto muito louco, parecia maluco para quem não o conhecia, e para quem o conhecia era muito mais louco do que aparentava. Japonês até a medula era, de acordo com ele, filho biológico de um casal completamente caucasiano. Capaz de puxar um nunchako ou um canivete da mochila para ameaçar quem dissesse que ele era adotado, como fez comigo certa vez.
Passamos juntos no exame de seleção do Colégio de Aplicação da UFRGS para a 6º série, e até conhecer o Leonel eu era um renegado solitário. Se eu já tinha o germe de ser diferente, com o Leonel comecei a ver que isso era uma qualidade e não um problema que desajustados tinham que enfrentar, como os infindáveis bilhetinhos para os pais e consultas chatas com psicólogos que tentavam nos desvendar com bloquinhos de madeira e figuras de morcegos borrados.
Encontramo-nos rapidamente lá na última fila da sala, lugar perfeito para quem desprezava conhecimento chato e ficava enchendo os cadernos com desenhos. Nós dois desenhávamos, e modéstia a parte bem. Não demorou muito para que passássemos a admiradores da arte um do outro.
Com o Leonel, aprendi como o quão produtivo podia ser matar aula. Em muito pouco tempo, as equações de 1º grau, foram trocadas por aulas roubadas na faculdade de filosofia, com a conivência dos professores entravamos nas aulas que expunham o pensamento de caras com nomes engraçados como Platão, Aristóteles e outros malucos que diziam coisas também malucas. O pouco que entendíamos era assunto para nossas incursões pela Redenção. Lembro de nós dois escalando uma árvore no parque, enquanto discutíamos o que cada um tinha entendido sobre renúncia aos bens materiais em busca da tranqüilidade, uma idéia maluca de um tal Sêneca.
Vejo hoje o quanto ganhamos por matar aulas, enquanto nossos colegas moldavam blocos de argila, nós aprendíamos composição, perspectiva e técnicas de óleo sobre tela na faculdade de Belas Artes. Arrumamos um bico na faculdade de Medicina, o professor responsável pelo laboratório recheado de ratinhos brancos, em troca dos nossos préstimos de capturar os roedores que escapavam das gaiolas, nos ensinava a dissecar os animais. Na mochila tínhamos escondido, jaleco, bisturi e pinças. Ajudávamos na alimentação dos cães e depois combinamos, não seríamos médicos, ao ver nossos amigos escancarados e abandonados à morte na sala de anatomia.
Enfim, o Leonel me ajudou a descobrir o quão importante é ser diferente, o quão produtivo pode ser não seguir o padrão, que o que hoje chamam de desajuste e loucura, amanhã pode ser chamado de vanguarda e genialidade. Se meu pai me ensinou a ter sede pelo saber, o Leonel me fez perder o medo de correr riscos por ele.
Este ano recebi de um colega uma foto, é a única foto que tenho dessa época. Algumas aulas nós não matávamos, só éramos expulsos às vezes, entre elas: música, teatro, educação artística e química no laboratório. Também fiquei sabendo este ano, que enquanto dormia ao lado da esposa grávida, o Leonel reagiu e foi abatido pelos assaltantes que invadiram sua casa. Mas, meu amigo continua vivo e estará sempre ao meu lado enquanto continuamos acreditando que anormal é aquele que não vê no diferente um importante semelhante.