30 Outubro 2007

Pouso em formação

Ultimamente ando meio fanático por fotografia. Fuçando por aí em sites de foto encontrei essa espetacular.
Por incrível que pareça não é uma montagem e sim o trabalho de um ótimo fotógrafo que flagrou o pouso simultâneo de um 747-400 da Lufthansa e um 757-200 da United no aeroporto de São Francisco, nas cabeceiras 28L e 28R das pistas paralelas, que distam 225 m uma da outra (procurei o mapa do aeroporto para checar) A ilusão de proximidade é causada pelo fato do 747 ser três vezes maior que o 757.

28 Outubro 2007

“Obrigada”

Essa aconteceu num shoppingzinho da paulista. Daqueles, estilo Ciudad de Leste. Após terminarmos as negociações pela manhã, retornamos ao hotel e depois de almoçarmos no ótimo buffet, subimos e tiramos as fantasias de advogados para aproveitar o resto da tarde dando uma caminhada pelas imediações. Estávamos hospedados no Tryp Paulista da Haddock Lobo.
A tarde estava ensolarada e fresca. Sugeri caminharmos pela paulista em direção ao MASP, para ver o que acontecia no museu mais famoso do país. Quando passamos em frente a tal galeria, lembrei-me que queria um tripé para a máquina fotográfica nova, já que finalmente resolvi estudar fotografia e agora com uma câmera com regulagens manuais um tripé é indispensável para longas exposições.
O lugar era apertado, movimentado e o corredor ladeado por baias recheadas de artigos eletrônicos e seus proprietários coreanos que falam descaradamente em sua língua nativa, dizendo sei lá o que em frente aos clientes.
A certa altura da procura pelo tripé, notei que éramos seguidos por uma senhora, de no mínimo uns 70 anos, bem vestida em seu vestido azul com babados e cabelos brancos presos. Em locais assim, sempre presto atenção em pessoas que andam atrás, se desconfio paro para olhar uma vitrine ou entro em uma loja. Foi o que aconteceu, puxei a Mônica para supostamente lhe mostrar a falsificação de uma Prada, a senhora parou, e quando saímos, ela tornou a nos seguir. Não havia dúvida, portanto, que nós éramos o seu objetivo. Redobrei a atenção aos movimentos de outras pessoas, já que era inimaginável qualquer ato agressivo da rechonchuda velhinha de azul, e seguimos caminho, os três agora.
Alguns corredores adiante, resolvi definir a situação e parei bem no meio do corredor, numa posição incomoda em que as pessoas tinham que fazer uma certa ginástica para passar por nós três, foi quando a senhora cutucou meu braço e disse:
-Moça!
Por conta do cabelo comprido e da “quase” androginia, não foi a primeira vez que se equivocaram com o meu gênero, mas esses fatos normalmente ocorrem em situações de pouca iluminação e quando estou sentado ou dirigindo, pois com minha altura, só passaria pela mais feia jogadora da seleção brasileira de vôlei. Mesmo assim, esses equívocos se dirimem instantaneamente quando abro a boca, e foi o que fiz:
- Pois não, senhora.
- Será que as moças não poderiam me conseguir um dinheirinho para eu comer algo?
Fiquei meio pasmo. A iluminação fluorescente era agressiva, eu estava parado em pé, de frente e havia tirado os óculos para largar o meu gutural “pois não senhora” e ainda assim ela continuava nos chamando de “moças”.
Agora queria investigar a higidez mental de nossa interlocutora. Aparentemente era uma senhora normal, com uma aparência boa até demais para quem esmolava. Dei corda. Queria que ela falasse mais:
- Como?
- As moças poderiam conseguir algum dinheiro? Estou com fome.
Olho para a senhora e sorrio, a Mônica também ri, puxo a carteira e agora é a senhora quem sorri. Alcanço-lhe os 4 reais, e acho que ela acha bastante, arregala os olhos e pegas as notas rapidamente.
- Eu sabia que vocês iam me ajudar. Duas moças tão lindas, altas, quase da mesma altura. Que Deus acompanhe vocês e sejam muito felizes.
Então resolvi me render:
- Obrigada! Igualmente para a senhora.
Peguei a mão da Mônica e lá fomos nós "duas" procurar o meu tripé.

25 Outubro 2007

Finalmente em casa

A viagem foi ótima, passamos por lugares lindos, alguns pela primeira vez, outros que estávamos com saudade. Vivemos coisas interessantes e temos histórias para contar.
Claro que os passeios e a curtição foram em momentos encaixados entre infindáveis reuniões com assuntos pesados e desgastantes. Fomos assessorar a família de uma vítima do vôo 3054 nas negociações com os advogados da TAM.
Ficamos um pouco reticentes em realizar esse trabalho, mas ao final concluímos que pior seria deixar leigos submeterem-se a uma negociação difícil como essa, diante de negociadores profissionais. Mais tarde vimos que estávamos corretos, do outro lado da mesa, havia profissionais com mais de 10 anos de experiência neste tipo de negociação nojenta, onde se colocam valores na vida de uma pessoa.
Sinceramente, os familiares deveriam ser poupados de uma coisa como esta. Os negociadores, por mais treinados e experientes que sejam na condução de um assunto tão delicado, não conseguem esconder que o objetivo final é “pagar” o mínimo possível pelos danos causados pela morte de uma moça.
É triste, também, presenciar a degradação das relações familiares que o dinheiro causa. O esfacelamento do caráter, o abandono da ética e da moral, a desconsideração com a palavra empenhada, as “mudanças de opinião” visando o aumento do quinhão, pessoas procurando aproveitar a situação para “se ajeitar” na vida...
Enfim, é bastante complicado conduzir um trabalho como este, tendo de um lado a frieza profissional e de outro o comprometimento emocional. Porém, ainda que não tenhamos chegados a um consenso, fomos bem sucedidos em nossa tarefa.
Na verdade, correu tudo tão bem, que nem chegou a abalar nosso estado de espírito e pudemos assim aproveitar ao máximo o restante da viagem.
Nos próximos dias vou contanto nossos causos.

23 Outubro 2007

Voltando

Finalmente tenho tempo para postar no meio dessa loucura que foi a viagem. Só amanhã estarei em casa, mas pelo menos agora já dá para prever os próximos passos.
Depois conto mais sobre essa semana. Abaixo umas fotos dos lugares por onde passamos.
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Rio Guaíba -RS ...........................Praça Roosevelt - SP
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Leme - RJ .........................................Vitória - ES
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...........Guarapari - ES

16 Outubro 2007

Sem plano de vôo

Sou meio rabugento com viagens às pressas, sem programação. Deve ser resquício do curso de piloto. Sinto-me completamente perdido quando tenho que decolar sem um plano de vôo. Mas, fazer o que? Às vezes com os negócios acontecem essas coisas. Então até semana que vem. O dia? Desculpa. Mas, não sei direito nem aonde vou que dirá quando volto. Saco né? Ainda bem que sou razoável na improvisação. Té mais...

15 Outubro 2007

Nossa Rosa

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Triste sentimento
ver te despetalarem,
presenciar teu sofrimento
ó delicada rosa.
Dói ver-te maltratarem
tu que és nossa rosa.
Queríamos base e vidro ser,
proteger, aconchegar,
nossa rosa que só quer amar...

14 Outubro 2007

O homem do café

Em meados do ano passado, fiz a mais longa viagem de automóvel da minha vida. Saindo daqui cruzamos o norte da argentina, voltando ao Brasil por Puerto Iguaçu, atravessamos o Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Tocantis, até Imperatriz no Maranhão. Ao todo foram quase 8.000Km em uma semana, para ir e voltar.
Viagens longas nunca me assustaram. Mas, essa viagem não seria fácil e começou a se mostrar complicada desde o princípio. Um problema mecânico já na entrada da Argentina, nos fez retornar e trocar de carro. Assim, perdia meu co-piloto, já que meu pai não dirige carros com câmbio mecânico.
Talvez por não querer ir, ou pelo momento emocional delicado que passava, não pude aproveitar quase nada da experiência de praticamente atravessar o país de sul a norte. Estava tão desligado que em Minas quando desci num posto para ir ao banheiro, todo mundo ficou me olhando. Só depois me dei conta que tinha acordado em Cascavel com um frio danado e agora na noite do mesmo dia os caminhoneiros saiam do banheiro de bermudas e camisetas regatas, e eu de jaqueta de couro.
Mantinha contato permanente com os problemas que tinha deixado apenas fisicamente para trás, enquanto dividia minha preocupação com as noites de sono curtas e a atenção na estrada. No início da Transamazônica, divisa de Tocantins com o Pará, finalmente um descanso descente às margens do grandioso Araguaia. O clima amazônico é meio assustador para um sulista acostumado com estações definidas. Era impossível sentir-se limpo, naquela temperatura e umidade.
Na volta, mais ou menos à altura de Palmas, meu pai caiu em um restaurante onde havíamos parado para almoçar, machucou umas costelas. Após verificarmos que não era nada grave, decidimos continuar. Ele tinha uma reunião em Goiânia na manhã seguinte e resolvemos esticar até lá. Após ajudar meu pai e colocá-lo para dormir, resolvi descer e ligar para saber como estavam as coisas. As notícias eram as piores. Tudo o que eu torcia para não acontecer, aconteceu. Dormi muito mal aquela noite.
Levantei às 6, precisava de um cigarro, estava me sentindo tão mal que fumar em jejum parecia agradável. Quando cheguei à esquina do hotel deparei-me com uma cena inusitada. A uns 2 metros do chão um homem sentado do lado de fora de um terminal de ônibus. Uma cadeira com pés muito longos era seu local de trabalho. Presa a grade havia uma tábua que fazia às vezes de prateleira, e sob ela pendiam garrafas térmicas.
Fiquei parado olhando, ali naquela esquina esqueci tudo de ruim que estava acontecendo. Tudo que via era aquele homem e o modo como ganhava a vida. Ouvia do outro lado da rua, os sonoros “bom dia” com que brindava seus clientes, antes de lhes servir café pelo buraquinho da grade. Tinha muitos clientes, e dava muitos “bom dia”. Tudo que eu queria era um “bom dia” e fiquei ali, roubando pedacinhos dos “bom dia” de seus clientes.
Além de admirar a criatividade do homem, que ganhava a vida pendurado na grade, seu bom humor e cordialidade com que fazia seu trabalho, foi a melhor coisa que me aconteceu naquela viagem. Mesmo longe e sem me ver ele me deu o alento que precisava. Puxei o celular e além de sua energia positiva, roubei sua imagem para guardar.
Desisti do cigarro e voltei para o hotel, dividi com meu pai um dos ótimos “bom dia”, que havia roubado, e tomamos o café da manhã.

12 Outubro 2007



A partir de hoje tenho o que reverenciar nesse feriado. Agora acho que nada é mais justo que o país pare todos os 12 de Outubro. Lembrarei do Senhor dos Palcos todos eles.

11 Outubro 2007

Chove...



Eu trabalho
Ele molhado
Ele voa
Eu enraizado
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Foto feita agora, sob minha janela. Clique sob a foto e veja que beleza de animal.

10 Outubro 2007

Ailton Graça

Meu pai estava no saguão do Congonhas. Como com a idade a poliomielite começa a dificultar sua movimentação, passou a ser comum utilizar cadeiras de rodas, que ele tanto odeia, para se movimentar em locais como aeroportos ou shoppings.
Enquanto aguardavam o vôo, meu pai pediu a minha irmã que o levasse ao banheiro. Quando se aproximavam da porta dos sanitários, Ailton Graça vendo uma moça se aproximar empurrando a cadeira, saiu desabalado do outro lado do saguão, chegou correndo antes deles alcançarem a porta e se ofereceu para auxiliar meu pai a utilizar o banheiro.
Transcrevo aqui a frase do meu pai para ele: “Te acho um ótimo ator e um homem muito bonito também, e é uma grata surpresa ver que você é ainda mais bonito por dentro.”
Um dia te darei um beijo Ailton, e te agradecerei por cuidar do meu pai.

09 Outubro 2007

Ditados Élficos

Em terra de rei quem tem um olho é cego.

08 Outubro 2007

Primavera

Com a visita do meu sogro, durante o final de semana, passei a mão na Lumix FZ dele. Aproveitando a qualidade das ótimas lentes Leica e o zoom ótico de 12x, dei uma volta pelo meu quintal e registrei toda a exuberância desta estação mágica.
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05 Outubro 2007

Pintar paredes

Recebi ontem uma proposta que me balançou. Um querido amigo me ligou dos EUA. Antes de entrar no assunto da ligação, como havia anos que não nos falávamos, conversamos muito sobre nossa atual situação. Ele era um competente funcionário de segundo escalão em uma empresa de porte médio, quando decidiu chutar tudo para o alto e ir pintar paredes nas terras do Tio Sam. Eu um advogado com 10 anos de experiência e conduzindo um escritório com mais de 400 processos. Ele em 4 anos comprou casa própria, bom carro e tem uma empresa de construção. Eu, a 6 anos tento terminar uma mísera reforma para morar numa casa que pertence a minha sogra, ando num carro velho, financiado e não consigo contratar uma mísera secretária para o escritório. É claro que não estou desconsiderando o trabalho brutal que meu amigo teve para conquistar tão merecida situação, nem a minha, talvez, ineficiência.
De qualquer forma, diante duma situação como esta, não consigo conter meu lado Diogo Mainardi. Talvez o presidente esteja certo em esculhambar com pessoas que estudaram. Sentei por 30 anos em bancos escolares, para agora balançar com uma proposta, que na minha atual situação é muito generosa. É claro que não passei a acreditar na estupidez de que estudar não é importante, mesmo porque não se estuda (só) para ganhar dinheiro. Mas, desconfio que tenha estudado no País errado.
O meu Mainardi interno já está de malas prontas e me enchendo a cabeça, sobre o grande negócio de pintar paredes longe do Brasil por US$9,00 a hora. Ele repete insistentemente que meus 30 anos de estudo serão mais bem aproveitados pintando parede, num país onde não é necessário ser presidente e/ou cambalacheiro para viver dignamente.

04 Outubro 2007

Mr. Wong

Terminei de ler “Ora bolas – O humor de Mario Quintana” do Juarez Fonseca. Na verdade devorei em poucas horas o pequeno e delicioso livrinho da L&PM, são 130 historietas juntadas pelo Juarez, que ilustram o genial senso de humor e também a rabugice lendária do poeta, que como já perceberam, me encanta. Impressionante, como livros assim podem ser mais esclarecedores da personalidade de uma pessoa que uma extensa biografia.
Ao contrário do restante do livro, onde os causos são narrados ou pessoas que conviveram com o poeta dão seus depoimentos, nas últimas páginas há um pequeno trecho do próprio Quintana, transcrito de “Sapato Florido”.
Foi quando percebi que o meu Mr. Wong havia feito uma foto em meio à tempestade emocional que foi a peça “Fala baixo senão eu grito” assistida do camarote 17 do Theatro São Pedro. Cenário a que, provavelmente, o poeta se referia para ilustrar o seu Mr. Wong.

Além do controlado Dr. Jekill e do desrecalcado Mister Hyde, há também um chinês dentro de nós: Mister Wong. Nem bom, nem mau: gratuito. Entremos, por exemplo, neste teatro. Tomemos este camarote. Pois bem, enquanto o Dr. Jekill, muito compenetrado, é todo ouvidos, e Mister Hyde arrisca um olho e a alma no decote da senhora vizinha, o nosso Mister Wong, descansadamente, põe-se a contar carecas na platéia...
Outros exemplos? Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo. Não perca tempo. Cultive o seu Mister Wong!
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03 Outubro 2007

Paredes


“ O PINTOR Waldeny Elias atende à campainha de seu ateliê na Rua General Vitorino e lá está Mário Quintana. Viera agradecer pelo presente, uma pintura de bolso, de 6cm x 4cm. Levava-a, contou com um sorriso português, “na algibeira do fato domingueiro”. Retribuiu presenteando o velho amigo, a quem chamava de Pinta-Mundos, com o recém-lançado livro Do Caderno H.
Na dedicatória, justificou por que não havia aceito um quadro grande que o pintor lhe oferecera.
- Elias, me desculpe e acredite. Eu não tenho paredes. Só tenho horizontes...”

Ora Bolas
Juarez Fonseca
L&PM

01 Outubro 2007

Abrigo

Eu vou ser um velhinho muito sem graça. Adoro pessoas que são livros de história da própria existência, aquelas que começam uma narrativa assim: “em 1914 durante o governo do presidente fulano de tal, eu...”. Mas, infelizmente anos são apenas números sem importância para mim. Tenho que fazer contas homéricas e associações com fatos contemporâneos para chegar às datas.
Portanto, não faço a menor idéia, e nem estou com disposição para fazer contas, para lembrar em que ano aconteceu esse fato. Só sei que tinha entre 18 e 20 anos e estava fazendo o curso de piloto no Aeroclube do RGS, em Porto Alegre.
O nome dela eu também não lembro (vou ser um desastre de velhinho) e o motivo pelo qual estávamos sob aquela parada de ônibus, eu não quero falar. O fato é que eu sabia que era a última vez que a veria, e fiz questão de acompanhá-la do aeroclube até sua casa em Belém Novo, que ainda era um distrito de Porto Alegre e estava em plena campanha de emancipação.
Após conversarmos na sede do aeroclube, caminhamos naquela tarde quente a abafada os quase 1.000 metros que separavam os hangares e alojamentos da estrada, onde ficava a parada do ônibus. Íamos com pressa, pois o Controle havia cancelado os vôos da tarde e estavam chamando os aviões em treinamento de volta ao aeródromo, pois uma grande tempestade se aproximava.
As nuvens negras e rasteiras avançavam rápidas e já estavam na margem oposta do Guaíba, quando passou lutando contra as rajadas de vento o último Neiva. Pouso difícil, certamente comandado pelo instrutor, o avião pulou umas três vezes na pista até finalmente cravar o trem de pouso no saibro. A galera dos planadores, que ficavam na casinha ao lado da pista, o esperava e correu para segurar os montantes das asas para evitar que as rajadas virassem o pequeno avião, acompanharam o taxi pendurados sob as asas até dentro do hangar e, finalmente cerraram as grandes portas.
A tal parada onde encontrávamos, eram apenas quatro canos de metal com um telhadinho de estrutura de madeira amarela e telhas de zinco, em meio a um enorme descampado, quase na linha da cabeceira da pista. Ao redor não havia nada que pudesse servir-nos de abrigo contra o vento que se tornava assustador. Nossa única esperança era que o ônibus chegasse.
O vento aumentou até o ponto de termos que virar de costas para proteger os olhos da quantidade absurda de poeira, a base na nuvem passou muito baixa e veloz sobre nós, sua cor negra contrastava com a faixa clara e avermelhada pela poeira, que diminuía no horizonte à medida que a tempestade avançava.
Eu estava assustado com a força do vento, e meu medo se confirmou, em um estalo seco e forte de madeira rompendo, o telhado desprendeu-se dos canos e alçou vôo, até se despedaçar uns 100 metros a nossa frente. Ela me olhou. Seu olhar era de pânico. Em um segundo olhei sob o ombro esquerdo, nada de ônibus, ato continuo, por sobre o ombro direito olhei em direção do aeroclube, não enxergava mais os hangares só uma espessa cortina branca e leitosa que se aproximava com o ruído típico de tromba d’água. Não havia como escapar da chuva. Lembrei-me das aulas de meteorologia, procurei rapidamente na estrutura das nuvens alguns dos sinais de formação de gelo, uma chuva de granizo, típica em tempestades de verão daquele porte, poderia nos machucar seriamente com aquele vento.
Quando o primeiro pingo ardeu-me nas costa sobre a camiseta, puxei-a para junto ao peito. Já havia sido surpreendido por tempestades em campo aberto na fazenda, quando abrigávamos sob os cavalos, e sabia o quão dolorida pode ser uma chuva.
Só então percebi o quanto ela tremia. Dei-me conta de quão apavorante aquilo tudo estava sendo para aquela frágil menina de 16 anos criada sem um referencial masculino. Disse-lhe alguma coisa encorajadora e apertei-a firmemente contra o peito. Era magra, cabelos castanhos e cacheados, mesmo com as costas ardendo pelos pingos, que pareciam tiros de arma de chumbinho, sentia o perfume de seus cabelos. As mãos fechadas e postas juntas sob o queixo, o rosto redondo e bonito que lembrava o da atriz Suzi Rego, estava fortemente apoiado sobre meu externo, e seus, no máximo, 1,70, pareciam muito menos entre meus braços. Finalmente estava calma, parará de tremer e até brincava com a situação. Enquanto a água fria nos encharcava, o calor do seu corpo aplacava o frio que com o amenizar do vento passava a ser nosso problema.
Quando finalmente tudo começou a acalmar o ônibus chegou. Subimos sob o olhar incrédulo do motorista e seguimos abraçados para nosso destino.
De fato nunca mais a vi, não lembro seu nome, nem a data. Mas, nunca mais a esquecerei, e desejo do fundo de minha alma que ela tenha encontrado um abrigo, como naquele dia eu fui, para enfrentar as intempéries da vida.