Eu vou ser um velhinho muito sem graça. Adoro pessoas que são livros de história da própria existência, aquelas que começam uma narrativa assim: “em 1914 durante o governo do presidente fulano de tal, eu...”. Mas, infelizmente anos são apenas números sem importância para mim. Tenho que fazer contas homéricas e associações com fatos contemporâneos para chegar às datas.
Portanto, não faço a menor idéia, e nem estou com disposição para fazer contas, para lembrar em que ano aconteceu esse fato. Só sei que tinha entre 18 e 20 anos e estava fazendo o curso de piloto no Aeroclube do RGS, em Porto Alegre.
O nome dela eu também não lembro (vou ser um desastre de velhinho) e o motivo pelo qual estávamos sob aquela parada de ônibus, eu não quero falar. O fato é que eu sabia que era a última vez que a veria, e fiz questão de acompanhá-la do aeroclube até sua casa em Belém Novo, que ainda era um distrito de Porto Alegre e estava em plena campanha de emancipação.
Após conversarmos na sede do aeroclube, caminhamos naquela tarde quente a abafada os quase 1.000 metros que separavam os hangares e alojamentos da estrada, onde ficava a parada do ônibus. Íamos com pressa, pois o Controle havia cancelado os vôos da tarde e estavam chamando os aviões em treinamento de volta ao aeródromo, pois uma grande tempestade se aproximava.
As nuvens negras e rasteiras avançavam rápidas e já estavam na margem oposta do Guaíba, quando passou lutando contra as rajadas de vento o último Neiva. Pouso difícil, certamente comandado pelo instrutor, o avião pulou umas três vezes na pista até finalmente cravar o trem de pouso no saibro. A galera dos planadores, que ficavam na casinha ao lado da pista, o esperava e correu para segurar os montantes das asas para evitar que as rajadas virassem o pequeno avião, acompanharam o taxi pendurados sob as asas até dentro do hangar e, finalmente cerraram as grandes portas.
A tal parada onde encontrávamos, eram apenas quatro canos de metal com um telhadinho de estrutura de madeira amarela e telhas de zinco, em meio a um enorme descampado, quase na linha da cabeceira da pista. Ao redor não havia nada que pudesse servir-nos de abrigo contra o vento que se tornava assustador. Nossa única esperança era que o ônibus chegasse.
O vento aumentou até o ponto de termos que virar de costas para proteger os olhos da quantidade absurda de poeira, a base na nuvem passou muito baixa e veloz sobre nós, sua cor negra contrastava com a faixa clara e avermelhada pela poeira, que diminuía no horizonte à medida que a tempestade avançava.
Eu estava assustado com a força do vento, e meu medo se confirmou, em um estalo seco e forte de madeira rompendo, o telhado desprendeu-se dos canos e alçou vôo, até se despedaçar uns 100 metros a nossa frente. Ela me olhou. Seu olhar era de pânico. Em um segundo olhei sob o ombro esquerdo, nada de ônibus, ato continuo, por sobre o ombro direito olhei em direção do aeroclube, não enxergava mais os hangares só uma espessa cortina branca e leitosa que se aproximava com o ruído típico de tromba d’água. Não havia como escapar da chuva. Lembrei-me das aulas de meteorologia, procurei rapidamente na estrutura das nuvens alguns dos sinais de formação de gelo, uma chuva de granizo, típica em tempestades de verão daquele porte, poderia nos machucar seriamente com aquele vento.
Quando o primeiro pingo ardeu-me nas costa sobre a camiseta, puxei-a para junto ao peito. Já havia sido surpreendido por tempestades em campo aberto na fazenda, quando abrigávamos sob os cavalos, e sabia o quão dolorida pode ser uma chuva.
Só então percebi o quanto ela tremia. Dei-me conta de quão apavorante aquilo tudo estava sendo para aquela frágil menina de 16 anos criada sem um referencial masculino. Disse-lhe alguma coisa encorajadora e apertei-a firmemente contra o peito. Era magra, cabelos castanhos e cacheados, mesmo com as costas ardendo pelos pingos, que pareciam tiros de arma de chumbinho, sentia o perfume de seus cabelos. As mãos fechadas e postas juntas sob o queixo, o rosto redondo e bonito que lembrava o da atriz Suzi Rego, estava fortemente apoiado sobre meu externo, e seus, no máximo, 1,70, pareciam muito menos entre meus braços. Finalmente estava calma, parará de tremer e até brincava com a situação. Enquanto a água fria nos encharcava, o calor do seu corpo aplacava o frio que com o amenizar do vento passava a ser nosso problema.
Quando finalmente tudo começou a acalmar o ônibus chegou. Subimos sob o olhar incrédulo do motorista e seguimos abraçados para nosso destino.
De fato nunca mais a vi, não lembro seu nome, nem a data. Mas, nunca mais a esquecerei, e desejo do fundo de minha alma que ela tenha encontrado um abrigo, como naquele dia eu fui, para enfrentar as intempéries da vida.